AdriCaramelo

Sob o visco de Apiúna

Foi uma mudança muito drástrica. O calor intenso que eu amava virou inferno, e quando eu achei que o frio pudesse se tornar o céu eu conheci Apiúna. Eu ainda não sei que árvore era aquela, se era um visco por estar perto do Natal, ou se era uma árvore maior com flores amarelas que enxeram meus cabelos de folhas secas, mas quando eu acordei eu sacodi a minha cabeça para afástá-las e de repente eu estava feliz. Não é exatamente o céu, mas é bem melhor do que estar sozinha.

Chaveirinho - Amizade Sincera


Quase nunca falo do presente.

Acho que nunca escrevi uma Amizade Sincera em tão pouco tempo. Na verdade é tão cedo que eu nem sei o motivo de ter virado uma amizade verdadeira. Eu andava sozinha e não queria Amizades Sinceras por aqui. Tu não pisca os olhos devagar, não come joaninhas vivas, não é hipocondríaca, não tem um grilo de estimação. Aliás, tu nem gosta de café. Tu vive prendendo o dedo nas portas de madeira, tem as mãos mais geladas e acha graça quando eu fico presa no elevador. Eu espero não estar sendo precipitada.
Aquele dia de maio tinha tudo pra ser um dia péssimo. Não importa muito o dia, o Barigui é sempre ruim, e eu, é claro, surpreendo-me com o sol durante esses raros dias. Eu teria que guiar as novatas até uma experiência que, eu sabia, seria desagradável. Eu só achei que a tua era pior, por isso fui te ajudar. Quando eu te encontrei eu achei parecida com uma outra leonina, manhosa e que pisca os olhos devagar, mas se fosse ela, certamente no teu lugar ela estaria sentada na calçada chorando. Ao invés disso tu estava atrapalhada com teu espelho novo. Eu te perguntei se tu era de julho ou de agosto. Depois a gente foi almoçar naquele restaurante que tu não te lembra.
Não sei se foi aí, ou se foi depois de uma semana de mais de mil mensagens, se foi na sexta-feira que fiquei sem um abraço ou se foi só depois de tu colar o espelho com chicletes. O que eu sei é que nossa amizade começou grande e eu preciso dizer que te amo. Que eu sinto a tua falta quando acaba a bateria e que eu vou trabalhar todos os dias feliz porque sei que não estarei sozinha. Eu sei também que é perigoso escrever tudo isso andando, mas é que eu já estou quase chegando na tua rota pra te ajudar.



Solidão



A solidão é fera, a solidão devora.
É amiga das horas prima irmã do tempo,
E faz nossos relógios caminharem lentos,
Causando um descompasso no meu coração.
A solidão dos astros;
A solidão da lua;
A solidão da noite;
A solidão da rua.

Eu quase consigo ver esse lugar como um diário meramente deprimido. Não consigo mais escrever aqui as coisas boas. Acho que não quero mais viver em baixo de uma árvore. Doeu-me tanto, ainda quando algo me tira o ar eu sinto como se tivesse caído de um lugar muito alto que esmagasse meu pulmão e meu crânio, quase não consigo enxergar e definitivamente não respiro. Talvez as coisas que eu penso não façam sentido, mas se fizerem? Talvez façam. Eu não quero dar outra oportunidade pra isso. Pensar acaba com todos os meus planos. Eu só quero mudar a minha casa.

-(não esquecer) Para Deus muitas vezes o silêncio é também uma resposta.

Dói.



A água vai.
A águia vai.
A alma vai.
A alma tá, a calma tá, a calma cala.
A calma calada, a alma calada, a alma grita.
A alma grita, a noite grita, a noite vem.
A noite vem, calada e grita, a noite para.
O tempo para, o mundo para, e sem ninguém.

Sem ninguém que cale a alma.
Sem ninguém que grite agora.
E essa dor que vai e vem.
Vem com medo e sem demora,
Essa dor que veio agora
E não liga pra ninguém.

Se apago e finjo o nada
Cai a dor sem mais nem menos?
Se eu digo o que incomoda
Perco tudo desse jeito?

Dói, dói, dói.

Eu vou parar de gritar


Pimenta nos meus olhos. A enxaqueca pode vir de repente e me deixar com medo e vergonha de estar fazendo manha de novo, mas hoje eu preciso de algo além da minha cama. Minhas pernas estão latejando de tanto descer escadas, a rota da Praça Osório já não é tão boa como costumava ser. Depois que eu terminei eu esperei um sinal, mas a TIM está sempre sem. Eu peguei meu amado celular dezenas de vezes, ou mais. Tudo em vão. Não é só um dia diferente, o desprezo vem aparecendo com o tempo, como sempre. Aquela carinha fofinha e amor incondicional? Não mais. Eu vejo um pouco de pena e um pouco de carência, nada mais. Talvez seja o momento, eu rezo pra que seja. Pois o vazio em mim vai tomando forma e eu já não consigo dormir nem comer de medo. Talvez eu esteja na TPM, cansada demais, essas coisas. Talvez eu esteja exagerando, mas acho que eu nunca tinha o visto assim e agora eu estou com muito medo. As coisas não vão bem pra mim nos últimos dias, porque algumas das minhas esperanças foram por água baixo. E eu tenho que me reerguer e tentar de novo, lógico. Se eu prometi mudar, eu vou, mas não deveria ser assim. Eu devia estar dormindo tranquila agora sem tentar levar meus pensamentos pra algum lugar. Porque? Desde o último post isso vem me incomodando e é uma ferida que vem sendo cutucada, não preciso disso. Queria ser menos burra e me controlar. Provavelmente eu estaria pelo menos em outro lugar. Tenho saudades de Apiúna e de Criciúma, e do passado. Um passado presente. Um passado urgente. Faço as coisas e me arrependo fácil, que raiva! Aquelas mãozinhas poderiam me confortar, mãozinhas de anjo. Se eu abraçasse meus joelhos pareceria tarde demais, mas não, são 23:15h e já está tudo assim, tão frio e vazio. São tantas coisas boas e lindas, mas tudo tão distante de mim nesse momento. Se ao menos eu tivesse um baú. Um pote pelo menos. Dor nas pernas, na cabeça, nos olhos. No peito. Qual é o jeito certo de continuar? Sonhando? Eu vou parar de gritar. Espero que assim alguém me ouça.

Diário


Como ser menos humano.
Um caderno de lembranças, quase como um passado desenhado a mão livre. Não é meu e nem posso controlá-lo. Ninguém pode. Porque dói?
Se aquelas palavras fossem realmente verdadeiras, não pode ser verdade agora. Mas na época eram. Eu sei que é humano sentir, sei que outros sentiriam igual. Mas não quero ser como os outros. Não quero sentir. 
Paralelo a isso a mãe do menino foi mostrar as fotos da ex-mulher pra atual. 
Isso não merece um post.

Oi Tati, sonhei contigo.


Falando em Anjo da Guarda, ele anda bem longe de mim. Culpa minha que não soube obedecê-lo, diria Angelo.
O meu sono agora tem vindo sem avisar. Na verdade, muitas vezes nem o vejo. A minha mente passa por tantos lugares que eu imaginava não ser capaz, e a dor vai diminuindo ou aumentando conforme o tempo que eu passei sem voltar. Existe aquele morro difícil de subir quando se é criança e provavelmente algumas crianças, diferentemente do resto do mundo, estão nesse exato momento olhando o céu pouco estrelado e sentindo em pleno a beleza do mundo. Alguém, como a Talita, pode dizer que sabe do que eu digo. São um monte de pontinhos luminosos no céu pouco estrelado, pontinhos de sonhos e esperanças. Naquela noite nós nos deitamos sobre o morrão de descer de roller e o chão estava quente. A cor do meu uniforme já não era mais decifrável, mas a verdade é que não há nenhuma importância nisso, quando estamos de olhos e coraçãoes bem abertos e as bocas fechadas, pensando como será daqui treze anos. E se existem as dúvidas, é melhor não respondê-las. Ninguém me contou o que aconteceria, mas eu agradeço, afinal nada é pra sempre.

Sonho de insônia


Era a minha obrigação, afinal não era só a minha noite que estava em cheque. Mas meu pote sumiu, fiquei procurando ele por algumas horas, desde a hora de dormir. Procurei pelos três ou quatro cantos onde ele pudesse estar, pedi ao São Longuinho. Mas acho que foi obra do meu Anjo da Guarda, ele é sempre muito sapeca. Esconde minhas coisas e depois devolve extamente no lugar onde eu mais procurei. E achei.
Tirei dele um pouco de socialização e prometi a mim mesma que não tiraria muita coisa a mais dessa vez, mas as coisas forão saindo sozinhas e depois que saiu uma janela inteira eu não pude mais conter. Havia uma luz bem pequena, quase imperceptível, exceto pra quem quer se esconder. Havia uma cama, mas ela não estava pronta para dormir, pois havia um violão que ocupava metade do meu lugar. Mas o meu sono foi chegando de leve e dormi assim mesmo. Mas quando eu acordei eu ainda estava no sonho, tudo intácto. Haviam coisas queimando, mas não sei definir bem. Durou apenas alguns minutos, ou talvez uma hora, mas o tempo passa diferente para cada circunstância. E aqui estou, acordada ou dormindo. E por isso não tenho certeza se estou com ou sem o meu pote, mas provavelmente ele foi servir de ombro pra alguém. Enquanto isso as coisas que saíram involuntárias servirão para me manter sonhando, por mim e por mais quem precisar de um sonho. As coisas parecem confusas, mas existe uma explicação, a saudade.

A origem


À minha memória paralela.
Eu já tinha aquela chata mania de guardar papéis, mas junto com ela havia aquele aparelhinho que eu achava tão capaz quanto a minha memória. Nele eu guardei as coisas que eu não queria ou não podia esquecer, como as Amizades Sinceras, mas de repente eu percebi que só as minhas memórias é que não são voláteis.
Eram apenas algumas músicas sem melodia. Onde foram parar meus papéis? Será que tudo isso faz parte de algo que eu apenas imaginei? Eu não estava dormindo, senti em pleno todo aquele cheiro, aquele gosto. Posso até me lembrar de como é tocar na mão de alguém e sentir queimar. Se fosse um filme eu diria que é aquele que quando algo traz alguma memória a tona toda a minha vida volta àquele lugar. Se fosse uma música, não seria uma só, seria um concerto desconsertado. Se fosse um livro, rs, seria aquele em que a garota sempre achou que fosse morrer.
Mas as vezes o meu celular tocava mais de 30 vezes e eu não acordava, e quando eu acordava alguém estava bêbado. É claro que era um sonho. Nada aconteceu realmente em minha vida, era tudo apenas uma subjetividade que eu acreditava entender. Poderia ser um mundo paralelo ou apenas um sonho que se sonha só. Porque não entendo agora?
Essas perguntas já não estão na minha cabeça. Talvez por causa do Topiramato, que me dava perda de memória recente, apesar de que estas memórias eram de outra vida. Lembro de alguém ter dito que isso era injusto, lembro de alguém ter vindo ao meu encontro de braços abertos e lembro das vozes que recitavam. Mas se realmente aconteceu, onde estão meus papéis? Em que ato estou neste momento? Qual é a minha fala?
Eu joguei fora o baú, mas ainda tem alguma coisa que não faz sentido. 
Por um bom momento eu quero apenas a liberdade. Eu poderia viver tudo outra vez. Mas e depois, será que ela teria o mesmo gosto? Eu não tenho essa escolha. Tudo acontece contra a minha vontade. Será que o gosto que eu senti é real? Certamente a realidade, não tendo o gosto, foi ainda mais intensa que tudo o que sonhei. O mais intenso de tudo o que eu senti.
Agora até as minhas roupas estão manchadas de vermelho de tanta honestidade. Eu também queria saber o que queres ouvir, e a cada palavra que agradar teus ouvidos eu abriria mão de um segredo. É incrível chegar a este ponto. Todas aquelas estrelas que seguimos.
Eu não gosto de toda essa minha fluidez, mas não há razão, vergonha ou família a quem eu possa culpar. Só não me deixe desaparecer. Eu tenho uma recomendação. Se o dia for mesmo difícil e a noite te persistir acordado, abra o pote que está embaixo da tua cama e, além de guardar nele todas as lembranças de hoje, pegue de volta todas as lembranças que há muito tu escondeste dentro dele. 

Eliana


ELIANA IN TRAINING - THE PASSIONATE ADELE SINGER